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sexta-feira, abril 23, 2010

Tentado colocar ordem aqui dentro.

Sinceramente, não pretendo ficar me desculpando pela minha racionalidade. É desse jeito que 'momentaneamente' eu estou vendo o mundo. Não quero pedir desculpas a ninguém no momento, e não é porque eu tenho dificuldade de pedir desculpas, porque eu não tenho MESMO, só não acho que devo no momento fazer isso. As vezes tenho a sensação que as pessoas me apontam, falam sobre mim pelas costas, estão me olhando e julgando. Pessoas que me conhecem, claro, não estou 'ainda' tendo um surto psicótico, sinto que os meus amigos tem me omitido coisas. E eu não gosto de omissão.
Eu sei que ando por aí me arrastando pelos cantos, sei que tenho ficado sozinha demais, que quando falo muitas vezes devaneio e sou cruel, sei também que eu tenho racionalizado tudo e que as emoções - meio que tiraram férias -, porém vejam bem, no meu último tombo feio (do qual ainda me recupero) eu não estava racionalizando as coisas - puta-que-pariu foi um tropeço do caralho - e tudo isso aconteceu porque eu estava muito envolvida 'como-só-eu-sou-capaz-de-fazer' sem calcular em que altura exatamente eu estava rodopiando de olhos vendados.
Não sou de defender a frieza, não acho que é o melhor caminho calcular tudo, ponderar sempre, quem me conhece sabe, gosto das coisas feitas por impulso, me apaixono sempre e por quase todo mundo que tem brilho no olhar, só que o tempo não está bom pra sair e tomar banho de chuva, não está bom pra se apaixonar pelo brilho de ninguém.
Eu estou organizando as coisas aqui dentro novamente, estou tentando achar um cantinho estratégico onde eu possa colocar uma jaula pra trancar essa minha mania de ir tão fundo nas pessoas, de deixar que elas entrem em mim e me conheçam a ponto de me sabotar. Eu preciso me proteger de mim, colocar essas minhas emoções intensas de castigo até segunda ordem.
Preciso digerir e ao mesmo tempo de algo que me entretenha durante esse período. Preciso também não enlouquecer remoendo essas coisas que me doem tanto.

A verdade mesmo é que preciso dar um tempo nesse livro que ainda me deprimindo assim.

segunda-feira, maio 11, 2009

Comemorando o aniversário da irmã distante.

Quando a gente se conheceu não senti que aquela seria uma das mais importantes relações da minha vida. Os sinos não tocaram, o sol não brilhou diferente, nos conhecemos no banheiro.
No banheiro feminino da Escola técnica onde ambas estudavam, eu caloura, ela já concluindo o 3º ano. Conversa de banheiro mesmo, não era para dar em nada.
Essas entregas...
E a conversa foi rendendo, de repente eu já era o bicho dela (bicho: como se chama calouro por aqui), e coisas em comum vieram a tona, diferenças também. Ela era da Igreja Batista desde de pequenininha e eu não consiga acreditar muito que deus podia ter alguma coisa haver com a minha vida. Eu era filha de pais separados e era cheia de problemas familiares insolucionáveis, ela tinha uma família bastante acolhedora e unida que respeitava diferenças.
Com o tempo fomos dividindo estórias, vivencias, roupas, lanches, brincos, segredos e tudo que dava para tirar de mim e colocar nela e vice-e-versa. Choramos juntas de tristeza muitas vezes, morremos de rir até chorar juntas idem, passamos a noite em claro com medo juntas um dia. Durmimos tantas outras vezes juntas... E viramos irmãs. Num processo muito lendo de aceitação e respeito ao outro, e como ela era difícil. Mimada! E eu também não era fácil não, já dizia minha mãe. Ainda sim conseguimos transpor as diferenças, e as pessoas até ousavam confundir a gente de tão parecidas que nós tinhamos ficado. Não uma imitando a outra, isso não, era uma internalizando a outra. Gestos, expressões, caras e bocas, roupas, estilos.
Porque era fácil viver quando eu era um pouco ela, porque ela gostava de ser um pouco de mim.
Brigamos claro, muitas vezes. Por comida, por atitudes, por amigos, por ciúmes e manias, mas no fim sempre conseguimos voltar ao nós felizes-para-sempre.
A Isa, minha irmã de alma, me fez estudar política, a Isa me emprestou o pai dela pr'eu guardar para mim como se fosse meu para sempre. Ela divide até hoje os pais comigo, e a gente nem lembra mais quando eles me adotaram. Porque foi a família da Isa que tomou conta de mim quando eu estava doente, foi a família da Isa que deu sentido a palavra família para mim.
Hoje vivo sem a minha irmã viajante, um dia após o outro, que já nem lembro mais das nossas brigas mais sérias, só sinto uma saudade enorme. Sei que cada um vai para onde o mundo chama, sei que para ela ir foi a realização de um sonho, sei que doí em mim tanto quando doí nela. Hoje é o aniversário dela e eu não posso dar um abraço.

Esse amor que ela me ajudou a construir que é tão grande, tão intenso, faz de mim uma pessoa melhor, me faz querer ser uma pessoa melhor, pelo que fomos, pelo que somos. Principalmente, pela família que temos.

Feliz aniversário irmã...

terça-feira, março 31, 2009

45 anos depois...

Hoje completa exatos 45 anos do golpe de 64. Diria que hoje eu consigo relembrar de um tempo que não vivi. Quando entrei no movimento estudantil li fascinada a história de tantos outros estudantes que como eu lutaram pelo direto de expor suas crenças, suas idéias de melhoria.
Eles Deram o suor e um pouquinho mais. Deram o sangue e um pouquinho mais. Os gritos, as dores, os medos, a coragem e a única coisa que acabavam com as próximas possibilidades de dar, a vida.



"Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como por exemplo o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste. O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife. "*


Estando eu no nordeste notícias como essa repercutiram muito dentro de mim. Claro que a conjuntura que vivi enquanto ME (movimento Estudantil) não representa nem de longe o que foi vivido em 64, mas acredito sim que a coisa no nordeste não mudou nada. Muitos nordestinos ainda resolvem seus problemas na bala, na pexeira e afins. Inclusive problemas políticos. Eu mesma sendo do ME fui ameaçada dezenas de vezes, perseguida por professores em sala de aula e fora dela, já jogaram o carro em cima de mim na rua, já depus para PF (Polícia Federal), já entrei em camburão e sai rapidinho por ser menor, já tomei advertência da PF, me meti em brigas em manifestações, tantas tantas coisas, que nem de longe representa o horror que foi a Ditadura Militar, mas que já me deram a noção de o quanto pode ser pesado querer defender-se, legitimar-se, expor idéias.
Essa não é uma homenagem ao golpe longe disso, é só uma lembrança 45 anos depois, relembrar os mortos, os torturados, os desaparecidos. Serve também para relembrar a impunidade aos torturadores anistiados, os mandantes-políticos torturadores, os médicos legistas inventores de atestado de óbito suicida. Ao momento da nossa história que repercute até hoje o que somos, e/ou o que sou por exemplo.
Talvez seja só mais um grito, só mais uma recordação de quem não viveu esses 21 anos de dor e muita luta, que seja, mas ainda sim é um grito e os gritos por aqui ecoam...

*fonte:ttp://www.cpdoc.fgv.br/nav_fatos_imagens/htm/fatos/golpe64.htm